segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A vós que me visitais

Chegados ao dia de hoje*, impunha-se um balanço do que fiz e do que deixei para trás. Houve situações sobre as quais eu deveria ter-me debruçado. Depois via que já estavam a ser tratadas, vistas e revistas e comentadas, não indo eu acrescentar nada de relevante. Outras houve em que, impulsivamente, lá dizia da minha justiça. Mas, o que na verdade acontece é que por aqui as coisas vão acontecendo sem prazos nem periodicidades. Penso que poderia ser de outro modo, mas ainda bem que apareceis apesar destas minhas falhas.



Hoje gostaria de produzir um grande texto se a isso me assistissem o engenho e a arte. Em vez disso prefiro recorrer às interrogações sobre o desconcerto do mundo do grande Luís Vaz de Camões nestes versos em oitava. Eis as três primeiras:

O desconcerto do mundo**

Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exp'rimentado e tão discreto,
tão fora, enfim, de humano entendimento
que, ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?


Quem há que veja aquele que vivia
de latrocínios, mortes e adultérios,
que ao juízo das gentes merecia
perpétua pena, imensos vitupérios,
se a Fortuna em contrário o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
em alteza de estados triunfante,
que, por livre que seja, não se espante?


Quem há que veja aquele que tão clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o próprio Momo às gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a má Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe não fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exp'rimentado?

.... (excerto)

Luís Vaz de Camões
in:Líricas - pg 85





Neste oitavo ano que agora começa aqui no Xaile de Seda, comunico-vos a intenção de reeditar a Quinzena do Amor, que irá de 31 de Janeiro a 14 Fevereiro. Por isso, peço o vosso contributo, como das outras vezes, trazendo-me poemas de amor, vossos ou de quem admirais, os quais publicarei durante esses quinze dias. Podereis deixá-los no espaço dos comentários. Para já, os meus agradecimentos.

Um grande abraço.


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* 7º aniversário do Xaile de Seda

** Nota de rodapé, do livro:
Esta célebre poesia moral foi endereçada ao seu amigo D. António de Noronha, filho do Conde de Linhares, companheiro e talvez discípulo algum tempo. Alude ao desconcerto, à má organização em que andam as coisas neste mundo: os bons por baixo, os maus no galarim

Imagens: Pixabay


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Biblioteca Pública





Sentados. Quatro à mesa. Eu e eles:
O miúdo que estuda, o homem sem emprego,
O velho sem mulher, sem casa, sem razão,
Trauteando, sujo e distraído;
E eu - casaco azul de breu, quase surrão
Que bela companhia que fazemos.

Dez cadeiras vividas, a mesa longa e lisa.
Um momento no tempo: parece reunião.

Enciclopédias, dicionários, História,
Economia, geografia, arte:
A rápida referência à grande paciência.
Renques de estantes, ruas, nesta aldeia olímpica,
Brochado contra o tempo todo o saber do mundo.
São 5 no relógio. Silêncio de pulseiras.

Um chapéu de abas largas, herói de chuvas,
Espanto de fronteiras, escoa pela porta.
Lençol lavado, esvoaçando, ao vento: um homem passa.
Outro homem entra. Duo de vidas
Que a ninguém importa.

"Materialismo histórico" de Mehring
Descansa os olhos: pernas elegantes.
E o moço pausa. Não pensa na causa
Nem sequer no efeito. E, contrafeito,
Torna, afeito à leitura.
A semana tem, às vezes, dias e actos de bravura.

Estremece a casa. Guerra. O espaço.
Cruzam-se os carros, fora. Cavalheiro e dama:
Insultam lama, lama, lama. Livre, ninguém reclama.

E a chuva bate, marcando a desora:
Dez, vinte, trinta folhas,
O cachecol, a samarra, o hábito diário.
Sem braseiro nem brasa,
Este é o lar dos que imaginam casa.

Um tronco de madeira, grande manjar de letras:
Os livros, as revistas, a tele, os jornais.
E o puzzle de sinais.

Partem os fracos.Só os fortes ficam:
Fogo de candeeiro, aqui. Caseiro.
Não forja espada nem vence eleição.
O conforto: modesto. Perene companhia.
Matemática impura: quase compreensão.

INÊS SARRE

In: Pelo espelho das coisas, páginas 46/47
Cooperativa Editorial dos Emigrantes - Baden/Suiça
Edição nº 003/84


A AUTORA:
Natural de Olhão, é Licenciada em Letras pela Universidade de Lisboa. Depois de dois anos de trabalho, como locutora, na Radiodifusão Portuguesa, foi Leitora de Português na Universidade de Leeds, Inglaterra. (...) Vive e trabalha, há já alguns anos em Londres. Tem colaboração em Modern Language Review, Peregrinação e Anuário de Poesia 1984.

(Referências retiradas do livro acima indicado)

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Imagem: Pixabay

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

...cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir


15 - Porque é que a TV foi essa "caixinha que revolucionou o mundo"? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniaturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, misturado ao quotidiano doméstico. 




Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdeu a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana. Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a "caixa revolucionadora" ser um objecto entre os objectos de uma sala. Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se  o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige colaboração da memória, do entendimento e da imaginação. A TV dispensa tudo. Uma simples frase como "o homem subiu a escada" exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. (...)

Vergílio Ferreira - "escrever" pgs. 23/24 - edição de Helder Godinho, Bertrand Editora - Chiado, 2001

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Imagem: daqui

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O país dos mil lagos

Continuando com o meu quiz do post anterior:
Perante a pergunta, pensei logo na região dos Grandes Lagos da América do Norte, ideia que abandonei logo porque geograficamente impossível, tendo em conta os países apresentados no quiz.



Vejamos, então:

O país dos mil lagos é:

A Finlândia

A Rússia
A Escócia
O Congo

Por exclusão de partes cheguei à resposta correcta: a Finlândia.


Mas, já alguém dizia do outro lado da mesa: Eu, quando estive em Helsínquia parecia que se me congelavam as pernas de tanto frio e estávamos em Abril. E outra coisa: nós somos um tanto ou quanto ruidosos, costumamos falar alto. Ia na rua a falar ao telemóvel num tom normal, pensava eu, quando reparei que as pessoas paravam a olhar para mim. Pareceu-me tudo muito silencioso, muito sem sal...









Por coincidência, A Volta ao Mundo deste mês traz um artigo, de José Luís Peixoto, sobre Helsínquia, onde fala do frio e da maneira como os finlandeses lidam com ele e, também, da impressão que nos dá a forma como olham ou não para nós, no caso vertente, para o autor. 

Vou deixar aqui algumas passagens do referido artigo:

Passeio pelo centro de Helsínquia sem obrigação de estar a horas em qualquer lugar. (...) Essa tranquilidade, adicionada a todos os corpos que passam sem olhar para mim, torna-me invisível. Como se me atravessassem, as pessoas não precisam de desviar-se, não dão qualquer sinal da minha presença. (...) 
Apenas o frio repara em mim. O frio chama-me desde longe e, logo a seguir, aproxima-se demasiado -(...)- escorre-me por baixo da roupa até me cobrir toda a pele, até ser uma segunda pele.
Frio? Pode sempre ser pior. Quando falei com finlandeses sobre o frio, responderam-me que poderia ser pior. (...)

Os finlandeses parecem feitos de neve como se guardassem no olhar, na pele, nos cabelos uma reserva de luz.


Se puderem, leiam este interessante artigo na sua íntegra.

Mas, comparando o desabafo acima e este último chegaremos à conclusão de que se passarmos silenciosos eles nem darão por nós.

Quanto aos lagos, encontrei esta informação, aqui:
  
A Finlândia é o país com o maior número de lagos na União Europeia. Existem cerca de 188 000 lagos na Finlândia (corpos de água parada de área superior a 5 ares, isto é, 500 m2). O número de lagos maiores que 1 hectare (10 000 m2) é superior a 55 000.

E esta hein??!!!

Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.


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POST 1 - La belle province

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1ª imagem: 
El lago Saimaa es la joya más preciada de la Naturaleza en Finlandia. Es el mayor del país y el cuarto de agua dulce mayor de Europa. aqui
2ª imagem:
Helsínquia

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

La belle province




Num quiz de perífrases relacionadas com países, com 17 perguntas, em família, para testar os nossos conhecimentos ao nível de curiosidades, respondi mal a algumas como a que a seguir indico.

Pergunta:

Que região é designada por: La belle province?

Le Québec
La Côte d'Azur
La Réunion
Madagascar


Olhei e olhei para estas quatro opções e saltou-me à vista "Côte d'Azur" e, claro, triunfantemente, respondi: CÔTE D'AZUR, sem me preocupar se se trata ou não de uma província.

Mas, não. A resposta correcta era: Québec  

Vejam, no video, se não é uma coisa mesmo bela no que toca à Natureza. Talvez seja uma boa descoberta a fazer, in loco, em tempos próximos.

Fui ver donde lhe vem essa designação:



Descobri que foi adoptada para placas de matrículas, entre 1963 e 1977. "La belle province" é utilizada em nomes de restaurantes e Quebec é designada como tal mais no exterior do que propriamente na região.

Por outro lado, a divisa de Quebec é "Je me souviens": 

Em 1883, Eugène-Étienne Taché, Comissário Assistente nas Terras da Coroa no Québec e arquitecto dos edifícios do parlamento do Québec, mandou gravar a frase na pedra por baixo do brasão do Québec na porta de entrada do edifício.
A frase tornou-se imediatamente oficial, mas o brasão só foi adoptado em 1939.
Armoiries du Québec depuis 1939.

Trarei mais algumas perguntas cujas respostas falhei, ou andei lá perto.

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Fonte do quiz:aqui
Placa de matrícula: aqui
Notas e imagens Internet
Video: Youtube