domingo, 21 de maio de 2017

A Lusitânia e os lusitanos

Diz-nos Estrabão que a Lusitânia era a maior das nações ibéricas e que os seus rios continham poalha de ouro. Sabemos que desta, outrora, próspera terra faz parte o nosso território e a estremadura espanhola. Dos lusitanos ou hispânicos ele e Trogo Pompeu contam que eram povo aguerrido com o corpo preparado para a abstinência e fadiga e ânimo para a morte... e que faziam sacrifícios aos deuses assim a modos que arrepiantes, bem ao modo da época. Destes heróis sobressai o mítico Viriato que é abatido por três dos seus oficiais comprados por Roma.



Camões ao cantar o peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram, convocando os deuses do Olimpo e tendo como pano de fundo a nossa epopeia marítima leva-nos a acreditar que os lusos, se é que existem ou existiram, são capazes de grandes feitos acima da sua condição humana. Por isso mesmo, temos na nossa História ecos de heroísmos que nos consolam e nos levam a acreditar que, por mais desolador que seja o nosso presente, há-de aparecer quem nos livrará desta apagada e vil tristeza.



D. Sebastião, o Desejado, foi para Alcácer-Quibir numa de teimosia ou por mau aconselhamento e lá ficou, enterrando consigo a nata da sociedade portuguesa. Mas sempre subsistiu em nós a crença de que ele viria um dia, numa manhã de nevoeiro, para resolver os nossos problemas. 

E não é que o nosso salvador, na sua auréola trágico-romântica, surge agora trazendo-nos esperanças nunca dantes apercebidas? Salvador de nome, de jure e de facto. Bem podem falar mal dele dizendo que foi golpe de marketing e coisas do género que não nos aquece nem arrefece. Cá por mim, podemos amar por todos e a todos. Eles que aprendam também a amar assim.

E mais. Doravante:

Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta.


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Imagens - Viriato e D.Sebastião, Rei de Portugal: Net
Em itálico: frases e expressões conhecidas da nossa literatura,
nomeadamente, d' "Os Lusíadas".
Ver aqui a Lusitânia de Estrabão. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Alde Manuce, a cultura clássica e o itálico

Ando muito preguiçosa com as minhas leituras. Até deixo livros a meio. Um caso de estudo. Ontem, madrugada adentro, estava eu a ler umas páginas mais de um livro que até já terá reclamado em viva voz, fui remetida para esta nota de rodapé, numa referência a "Os Comentários"(De Bello Gallico), de César: Alde Manuce, muito célebre, é o inventor dos caracteres itálicos*. Claro que isto chamou-me logo a atenção. Tantas e tantas vezes tenho usado o itálico sem nunca prestar atenção às suas origens. E que é que eu vi sobre o assunto?

Antes de assumirmos a invenção do itálico por Alde Manuce, aliás, Aldo Manuzio ou Aldus Manutius, nascido Teobaldo Manucci (1452-1515), temos a escrita cursiva desenvolvida por Niccolò d'Niccoli. A partir dessa escrita Francesco Griffo fizera as primeiras punções, instrumentos para gravar, e, em 1501, este tipo, conhecido como itálico ou aldino, é utilizado pela primeira vez na imprensa por Manuce.

Li que Aldus Manucius, humanista, editor e tipógrafo, encontra-se no grupo dos grandes divulgadores da cultura clássica, tendo publicado entre 1495 e 1509 obras de Aristóteles, Aristófanes, Thucydides, Sófocles, Herodoto, Xenofóne, Euripides e Demostenes, entre outras. Depois de 1513, foi a vez de obras de Platão, Pindar, Hesychius e Athenaeus. Além dos textos dos autores referidos, Aldus publicara obras de Pietro Bembo, Poliziano, Dante, Petrarca, Plínio, Pontanus, Sannazzaro, Quintiliano, Valerius Maximus, Erasmo de Roterdão, e muitos mais.
Na Imprensa Aldina, (esta designação será originada no seu nome - não vi outra explicação), foram compostos os primeiros livros de bolso, uma invenção muito ao gosto dos humanistas que viajavam muito.


Por outro lado:
A Biblioteca Nacional, Portugal, realizou em 2015, uma mostra da sua obra, referindo, em especial, um livro com a correspondência de Catarina de Siena, freira dominicana, hoje aceite como Doutora da Igreja, livro esse que atesta essa técnica, utilizada pela primeira vez, em que: a gravura apresenta três frases escritas - «iesu dolce; iesu amore; iesu» - numa letra diferente de todas as outras que a tipografia experimentara e conhecera até então: uma letra levemente inclinada à direita, um ductus que Aldo Manuzio desenhara e fizera abrir pelo gravador Francesco Grifo e que ajudava a expressar e a destacar o êxtase sentido pela santa. Um tipo novo que depressa começou a correr mundo e que hoje é conhecido como itálico. Uma forma de letra que no meio de um texto extenso se destaca e chama a atenção do leitor.

Ficou aqui demonstrado que só tenho a ganhar com leituras aturadas e consistentes mas, mesmo assim, noto uma falha, minha na certa. Não fiquei a perceber bem se Alde Manuce, Aldus Manutius ou Teobaldo Manucci, inventara o itálico ou apenas, o que já seria muito, terá utilizado a escrita anteriormente desenvolvida por d'Niccoli, inovando-a e dando-lhe uma utilização mais globalizante com a ajuda das punções de Griffo. Numa missiva a um amigo, Manutius refere em 1501, que: estamos a imprimir em formato bem pequeno, para que seja convenientemente bem segurado pelas mãos e aprendido pelo coração (sem falar em ser lido) por todos. Todos, com um sentido bem relativizado na nossa óptica de hoje.

Quanto à utilização do itálico por nós, já se sabe, uma delas é chamar a atenção para textos ou expressões que não são da nossa autoria, mesmo quando, ou especialmente, desconhecemos a fonte. Espero tê-lo feito, além de indicar a proveniência dos textos lidos.

Desejo-vos uma boa semana.

Abraço.


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*Benzoni, Juliette - O Quarto da Rainha, pg 68
Ver mais e conferir: aqui, aqui, aqui,aqui, aqui
O itálico do meu texto diz respeito a excertos destas referências.
1ªImagem (net): escrita cursiva de Francesco Griffo
2ª imagem: Sancta Catarina - BNP

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A roda do poder

Pequeno poder? Grande poder? Penso que esta distinção não existe. Todo o poder é poder. Todo o poder tem a importância que lhe é dada por quem está na mó de baixo e reconhece no outro o poder de o afectar de algum modo. 

Logo de entrada aparece o favor que ao ser concedido cria desde logo uma relação de dependência. E não será preciso pensar-se em favores do tamanho do mundo. Bastará passar o processo que vinha no fim da lista para um lugar mais simpático. A consulta médica que não podia ser para hoje, mas que depois de bem conversado até passa a ser possível. O colega que precisa que o outro lhe pique o ponto. O funcionário que passa o amigo ou conhecido para o princípio de uma fila de atendimento, seja de emprego, de subsídios, serviços sociais, no aeroporto, seja o que for. São situações que na maior parte das vezes irão prejudicar de algum modo uma outra pessoa. 



E, paralelamente, a coisa vai aumentando na escala social. Chegam-nos notícias de grandes decisores, aqueles que têm a faca e o queijo na mão e que controlam a sociedade em toda a sua dimensão, fazendo sua a coisa pública. Ele é o tráfico de influências, ele é os grandes favores, os desvios e a má gestão beneficiando-se a si próprios e a amigos e clientela, um Deus nos acuda. A célebre cunha continua tão activa e necessária como o ar que respiramos.

Mas o poder não se esgota nisso. Temos o poder psicológico, de controlo sobre o outro nos mais ínfimos pormenores, que não é coisa pouca para quem o sofre. E isto pode verificar-se em casa, com a ascendência de um cônjuge sobre o outro, sobre os filhos, sobre os velhos. Pode verificar-se no trabalho, com os maus chefes, os colegas invejosos, emprateleirando quem lhes não caia no goto. E na sociedade em geral quanto ao que é diferente, a quem está em minoria, seja por deficiência física, por motivos raciais, religiosos, por orientação sexual.


Ocorre-me desejar que este ano de 2017, (já vai no seu 5º mês), nos traga mais tolerância, mais altruísmo e mais amor ao próximo; não prejudicar uns em benefício de outros, havendo divisão equitativa de oportunidades.


Utopia? Talvez não. Bastaria que o quiséssemos todos.

Para já, centremo-nos nisto: Maio é o mês de Maria, o mês do Coração e, também, o mês em que acaba o prazo para a entrega do IRS. 

Um bom dia a todos os que por aqui passarem.

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Imagem Pixabay
  

domingo, 7 de maio de 2017

Poema cansado de certos momentos





Foi-se tudo 
como areia fina escoada pelos dedos. 
Mãe! aqui me tens, 
metade de mim, 
sem saber que metade me pertence. 
Aqui me tens, 
de gestos saqueados, 
onde resta a saudade de ti 
e do teu mundo de medos. 
Meus braços, vê-os, estão gastos 
de pedir luz 
e de roubar distâncias. 
Meus braços 
cruzados 
em cruz de calvário dos meus degredos. 
Ai que isto de correr pela vida, 
dissipando a riqueza que me deste, 
de levar em cada beijo 
a pureza que pariste e embalaste, 
ai, mãe, só um louco ou um Messias 
estendendo a face de justo 


para os homens cuspirem o fel das veias, 
só um louco, ou um poeta ou um Cristo 
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram 
e, embora rasgado, beber o perfume 
e continuar cantando. 
Mãe! tu nunca previste 
as geadas e os bichos 
roendo os campos adubados 
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos 
pela flor menina dos meus prados. 
E assim, geraste-me despido 
como as ervas, 
e não olhaste os pegos nem as cobras, 
verdes, viscosas, espreitando dos nichos. 
De mão nua, entregaste-me ao destino. 
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos. 
E sem elmos ou gibões, 
nem lutei nem vivi: 
fiquei quieto, absorto, em lágrimas 
— e lá ao fundo esperavam-me valados 
e chacais rancorosos. 




Mãe! aqui me tens, 
restos de mim. 
Guarda-me contigo agora, 
que és tu a minha justiça e o exílio 
do perdido e do achado. 
Guarda-me contigo agora 
e adormece-me as feridas 
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço 
o fantasma do perdido? 

in "Mar de Sargaços" 


(1919-1989)


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Em 9/05/2017


Meus amigos:

Já me encontro em solo pátrio, sã e salva. :) 
Muito obrigada pelas vossas visitas.

Tenham uma óptima semana.

Abraço

Olinda

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Poema e imagens: Internet 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Conquista




Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

in 'Cântico do Homem'


(1907-1995)


A liberdade, uma conquista de todos os dias. Existem grilhões impensáveis. Importante "é quebrar dia a dia um grilhão da corrente".

Meus amigos, estarei ausente durante alguns dias. Vou para um sítio, fora do país, aonde nesta altura talvez não devesse ir. Mas, é condição essencial do ser que se quer livre arrostar alguns perigos, conscientemente, quando necessário.

Então, até um dia destes. E sejam felizes por cá.

Abraço.

Olinda


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Poema: Citador
Imagem: Net